O que fazer nessa crise: profissional, empresa, entidade | Blogs Pini
3/Março/2016

O que fazer nessa crise: profissional, empresa, entidade

Aldo Dórea Mattos

O Brasil está numa pasmaceira de dar dó e a crise atual está dando prenúncios de durar ainda algum tempo (tomara que eu esteja errado!). Eu me formei em 1987 — lá se vão quase 29 anos! — e nesse período atravessei crises de todos os tipos. Como engenheiro, vivi períodos de euforia, com todo mundo empregado e salários em alta, e vivi épocas da mais completa desilusão, com demissões em massa e pilhas de currículos trafegando em todas as direções por correio, fax e e-mail.

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Aliás, foi num período de crise como esse, no começo dos anos 90, que presenciei muitos colegas emigrando para áreas como processamento de dados (a TI de hoje), advocacia e finanças, ou fazendo concurso para auditor fiscal e outros cargos públicos que o domínio dos números ajuda a conquistar.

Sendo este um blog de Engenharia, onde não me manifesto sobre nenhum assunto que não seja técnico, o que posso fazer é compartilhar com vocês algumas opiniões e dar alguns conselhos sobre o que fazer numa época como essa. O que escrevo abaixo não é autoajuda (talvez “Aldo ajuda”), mas reflexões de alguém que aprendeu a não se animar demais com os momentos de glória profissional e nem se lamuriar em épocas de vacas magras.

O PROFISSIONAL
Sua obra terminou? Foi demitido? Não vão renovar seu contrato? Pare de ficar se queixando da vida e pense em como tirar proveito desse período de baixa. Eu chamo esse período de entressafra. É justamente na entressafra que se prepara o terreno. Invista em capacitação! Este é momento ideal.

Como é certo que dentro de algum tempo a crise vai amainar — lembre-se: depois da noite sempre vem o dia —, essa época de pouca agitação é muito propícia para que o profissional se dedique a aprender coisas novas, desenvolver habilidades, buscar novos horizontes. Se você sempre teve vontade fazer um intercâmbio no exterior, por que não faz isto agora que as coisas estão paradas no Brasil? Você melhora seu currículo, ganha maturidade, tem exposição a novos mercados e, quando voltar, pegará o mercado em ascensão e com maior chance de conseguir um novo emprego (ou um melhor). Sempre é mais difícil arranjar tempo para realizar esses planos quando o mercado está aquecido.

Quer algumas dicas de curso?

• BIM
• Compatibilização de projetos
• Planejamento com MS Project ou Primavera
• Dosagem de concreto (é o que eu faria, adoro o assunto)
• Matemática financeira
• Gerenciamento de projetos (útil para a vida cotidiana)
• Fundações profundas
• Projeto de fachadas
• Contabilidade básica
• Suprimento e contratos
• LEED (por que não se tornar um especialista? Isso terá demanda crescente)
• Crédito de carbono (só vejo advogado nessa área; um engenheiro tira de letra)
• E o mais importante: INGLÊS!

A EMPRESA
A situação atual para boa parte das empresas é de retração de mercado: obras terminando, poucas licitações, pouco investimento público e privado, setor imobiliário estagnado. O que fazer com sua empresa? O dilema é: demitir para contratar depois (perdendo a equipe formada durante anos) ou manter a equipe nesse momento de faturamento menor (abalando o caixa da empresa)? Não há resposta definitiva.

O que há de definitivo, sim, é que a entressafra deve levar a empresa pública ou privada a investir em priorizar o que é essencial, tanto em termos de contratos como em termos de processos. Vou explicar.

Pensando nas empresas públicas, eu que eu faria se fosse gestor seria: redesenhar 2016 e 2017 para os recursos com que a empresa poderá contar. Isso parece óbvio, mas não é. Por quê? Porque em muitos casos, o gestor não sabe que contratos ou que obras cortar. Paralisar, diminuir o ritmo ou fazer um distrato? Tudo sem seu risco, tudo tem seu preço. A solução para isso passa longe do empirismo; o certo é fazer um realinhamento do portfólio da empresa, isto é, do acervo de contratos e projetos que ela tem. Esse trabalho, que requer alto grau de isenção, passa por estabelecer critérios de priorização que envolvem o estágio dos contratos, os problemas para distratar ou suprimir partes, a imagem da empresa, os impactos sociais, os montantes envolvidos, as partes envolvidas e afetadas, etc. Um pouco de política, também, mas isso é um critério a mais.

Acabei de voltar de um trabalho na África, numa missão da ONU, que tratou de avaliar um programa de saneamento básico que tem recursos apenas até 2018. O trabalho envolveu diagnosticar a estrutura gestora do programa, analisar os contratos de construção, identificar os gargalos operacionais, avaliar o avanço das obras, mapear os riscos do programa como um todo e emitir um parecer com recomendações. Muitas dessas recomendações envolviam mudanças gerenciais, alterações de rumo, aceleração de contratos e até onde cortar escopo, no caso de o programa vir a dar sinais de não ser concluído integralmente até 2018.

Pensando nas empresas privadas, eu que eu faria se fosse gestor seria: redesenhar 2016 e 2017 para os recursos com que a empresa poderá contar. A mesma sugestão que fiz para a empresa pública, mas com outro viés. Primeiramente, temos que pensar no que realmente afeita o resultado da empresa. Sendo ela do setor imobiliário, uma boa reflexão pode ser avaliar o impacto de atrasar deliberadamente a entrega de algumas obras, recorrendo a critérios empresariais (uns dos quais mencionei acima) e uma boa dose de cálculos. Mas não é só. O empresário pode se dedicar, nessa entressafra, a rever seus processos. Muita gente acha que processo é sinônimo de software, mas não é. Processo é mecanismo de gestão. Indagações que sempre faço são: quais os indicadores relevantes para o alto escalão da empresa? Os relatórios (que geralmente ninguém lê!) estão sumarizando o que realmente importa?

Fiz recentemente uma imersão numa empresa de construção. A pedido da diretoria, mapeei o que havia furado em termos de orçamento nas obras atuais e em obras recentes. Ao realizar esse trabalho, a empresa se desnudou antes meus olhos, porque eu pude ver como ela orçava — havia claro método científico em certas especialidades e chutes estapafúrdios em outras —, como comprava — processo de suprimento e formas de contratação —, como reportava os resultados —verdadeira aula de química — e como (não) se beneficiava das lições aprendidas.

A ENTIDADE
Em época de crise, os primeiros cortes de verbas dos profissionais e das empresas recaem sobre o que é considerado supérfluo: filiação a entidades, assinatura de revistas, participação em congressos, etc. Quando eu digo entidade, refiro-me a entidades de classe, conselhos profissionais, associações de engenheiros/arquitetos, institutos e sindicatos de empresas.

Como reter profissionais e empresas em momentos de baixa? Uma resposta óbvia é baratear os custos de filiação, prática que pode trazer resultados variados. Entretanto, eu já percebi que o que realmente mantém aceso o vínculo com as entidades é a percepção do valor da filiação. Explico: há quem se filia meramente por status, e quem se filia porque pretende auferir benefícios práticos. Suponha que eu seja dono de uma construtora predial e seja filiado ao Sinduscon de meu estado. Em meio à crise, eu cogito cancelar a filiação. Embora o preço me venha à mente, o que mais alto me fala é o quanto eu perderei se deixar de ser membro. Se a motivação for o status, a probabilidade de não renovar a filiação é alta; se a motivação for benefícios, a probabilidade é mais baixa.

Mas como aumentar essa motivação? Após conversar com colegas engenheiros e empresários e tirar minhas próprias conclusões, estas são algumas sugestões:

1. Plano de saúde – hoje em dia fazer um plano de saúde familiar custa uma fortuna. Mensalidades de 2 a 4 mil reais são comuns. Imagine um engenheiro desempregado tentando contratar um plano: é um sufoco! Se as entidades de classe e sindicatos oferecerem plano de saúde como um dos benefícios aos associados, o valor é muito menor em função do poder de barganha da entidade. É um atrativo e tanto!
2. Treinamento – minha percepção do valor de uma entidade passa pela avaliação que faço do que ela oferece em capacitação. Nos momentos de crise, oferecer treinamento agrega bastante valor à filiação;
3. Consultores e despachantes – vocês já perceberam que cada construtora recorre a um despachante ou intermediário para obter informações ou conseguir documentos e liberações em órgãos como as concessionárias de água e energia, o corpo de bombeiros e a prefeitura local? Agora imagine se a entidade tiver um contrato permanente com um pool desses agentes, pagando-lhe uma mensalidade fixa e colocando-os à disposição dos associados? Além da padronização da conduta, ganha-se muito em agilidade e redução de tempo.

E você, leitor? Foi atingido pela crise? O publicitário Nizan Guanaes tem uma frase boa: “enquanto uns choram, eu vendo lenços”.