[52] Visão sinóptica nas normas técnicas | Blogs Pini
26/Janeiro/2016

[52] Visão sinóptica nas normas técnicas

Paulo Grandiski

O eng. Sérgio Stolovas divulgou em 18 de janeiro no grupo de discussão COMUNIDADE TQS, sediada no YAHOO, a mensagem 68796: "De Normas, Velocidades Básicas do Vento, Percepção e Bom Senso", desencadeando interessante discussão sobre o tema, da qual tomo a liberdade de transcrever o seguinte trecho genérico da parte inicial:

"Antes de começar qualquer diálogo precisamos de um mínimo de consenso:
a) As Normas Técnicas devem ser obedecidas pelos engenheiros.
b) O bom senso deve também governar as decisões de qualquer projeto.
c) As premissas a e b não são sempre compatíveis quando o engenheiro não possui uma visão completa do que as normas afirmam nem das limitações ou exceções das mesmas.
d) As Normas Técnicas, especialmente quando se realiza uma interpretação superficial ou pobre do conteúdo e do contexto estão frequentemente em conflito com o bom senso.
e) Se um engenheiro sabe unicamente o que está escrito nas normas e carece de bom senso não está capacitado para resolver adequadamente projetos que não sejam estritamente típicos.
f) Nenhum projeto é estritamente típico.
Os engenheiros (e também o resto dos mortais) somos influenciados pela percepção (certa ou errada) do universo no qual estamos imersos. A percepção não é necessariamente governada pelo bom senso (raciocínio salutar).

Ou seja, acreditar que as nossas opiniões e decisões (profissionais e outras) estão governadas unicamente pelo raciocínio puro é parte dessa percepção geralmente errada e limitada que temos de nós mesmos como parte desse universo que dificilmente compreendemos.

Nossas limitações cognoscitivas não são um simples acidente da conduta humana, são a pauta de muitas das coisas que fazemos nas nossas vidas e dos nossos preconceitos mais arraigados.

Por isso, esse difícil equilíbrio entre ser fieis às nossas convicções e saber mudar de convicções é essencial. Ter a capacidade de mudar de opinião e estar abertos a incorporar novas ferramentas de percepção e entendimento não significa ser voláteis. Muito pelo contrário, escutar e se for o caso não hesitar em reconhecer que estávamos errados no que antes era nossa convicção é essencial para evoluir.

Faz uns meses tive a esquisita vivencia de escutar de um colega pronunciar com orgulho: "Meus edifícios serão projetados de maneira que inclusive o furacão mais forte que possa acontecer não seja capaz de provocar dano neles".

Para preservar o anonimato digamos que o nome do colega é Eng. Harry Potter. De fato, por um momento pensei em perguntar se ele acredita ser Harry Potter, se ele alguma vez já usou o bom senso para analisar o conteúdo e os propósitos das Normas, ou até se ele está baixo os efeitos de algum tipo de entorpecente.

Porém, a réplica mais adequada que achei para esse disparate furtivo foi o silencio, respirar fundo e começar a explicar algo mais ou menos assim:
As normas de projeto estrutural não são adequadas para fenômenos não sinópticos como o caso dos furacões. Além de certas tentativas de modelagem e trabalhos muito interessantes desenvolvidos atualmente pelo brilhante Professor Dr. Jorge Daniel Riera da UFRGS, pouco sabemos da história de campo de forças às quais são submetidas estruturas de edifícios durante eventos não sinópticos. Porém, sabemos que a distribuição e a correlação espacial e temporal são bem diferentes à que assumem as Normas de Projeto estrutural. Harry Potter não ficou muito convencido, mas pelo menos não voltou a falar do assunto."

MEUS COMENTÁRIOS

A partir desse ponto o autor analisa o problema da máxima velocidade normativa prevista para os ventos e seu eventual incremento ao longo do tempo, que foge ao objetivo deste post, mas merece ser lido na íntegra. Reproduzo abaixo o parágrafo que aborda o tema deste post [52]:

"Existe a percepção fundamentada da mudança climática associada ao aquecimento global que poderá reduzir o período de retorno e incrementar a intensidade de fenômenos não sinópticos. Porém, não existe nenhum indicativo claro nem fundamentado de incremento da velocidade básica do vento (associada a fenômenos sinópticos".

Em outras palavras, alterações de fenômenos na natureza (notórias mudanças climáticas + aquecimento global) podem induzir ao aumento da velocidade máxima dos ventos indicada nas normas técnicas. Problemas semelhantes sempre existiram na área abrangida pela ABNT NBR 15421:2006 - Projeto de estruturas resistentes a sismos - Procedimento - que correspondeu a um avanço, na época, ao apresentar critérios de quantificações relativas às ações dos sismos ("terremotos") e os respectivos critérios de quantificação das resistências a serem consideradas no projeto, que variam conforme o zoneamente sísmico brasileiro (item 6, categorização das estruturas paa a análise sísmica (item 7), requisitos sísmicos para as estruturas de prédios (item 8), etc.

Segundo o Dicionário Houaiss, SINOPSE tem os sentidos de "1 -visão geral, golpe de vista lançado sobre o todo de uma ciência, de um objeto de ensino ou de pesquisa. 2 - relato breve, síntese, sumário."

Concordo com a visão do eng. Stolovas, segundo a qual as normas técnicas apresentam uma visão sinóptica dos temas abordados, ou seja "que permite ver de uma vez as diversas partes de um conjunto (HOUAISS). Mas daí surge uma pergunta óbvia: como deve ou deveria agir o usuário da norma diante de um caso "não sinóptico?", na feliz expressão do eng. Stolov.

A DIRETIVA 2 ABNT, considerada como a "norma brasileira de como fazer normas" é omissa a respeito, limitando-se a informar que ela representa o "estado da arte", que assim é definido no seu item 3.8: "estágio de desenvolvimento de uma capacitação técnica em um determinado momento, em relação a produtos, processos e serviços, baseado em descobertas científicas, tecnológicas e experiências consolidadas e pertinentes".

A opinião do eng. Stolovas está em consonância com a minha e tambem com a conclusão geral contida na frase do eng. Marco Simonotti, em seu livro FONDAMENTI DI METODOLOGIA ESTIMATIVA - Liguori Editore "Use conhecimento técnico enquanto puder, depois use o bom senso"

Sou da opinião de que é uma tarefa impossível "normatizar critérios de bom senso", pois variam de pessoa a pessoa, de problema para problema, etc. Disso resulta a seguinte pergunta:

Na redação das normas, quais as soluções viáveis para esse dilema?

Eu sempre defendi o critério adotado pelo Appraisal Standards Board da THE APPRAISAL FOUNDATION, ou seja, apresenta no corpo das normas os padrões ("standards") genéricos definidos por consenso, num certo instante, ficando sua revisão prevista após longa decorrência do tempo (por exemplo, a cada 3 ou mais anos).

Os pontos polêmicos, não definidos por consenso, mas aprovados por uma maioria significativa dos membros das Comissões de Estudo da norma ficam fora do texto da norma, MAS NÃO DEVERIAM FICAR SEM DIVULGAÇÃO, evitando assim que esses conhecimentos fiquem restritos APENAS aos membros participantes das Comissões de Estudos das normas. Ao contrário, na orientação da APPRAISAL FOUNDATION, eles são divulgados em textos específicos, numerados sequencialmente, sob o título de ADVISORY OPINIONS, algo como "pareceres opinativos", que correspondem a recomendações de um grupo majoritário dos membros das C.E.s, portanto não de uso compulsório, conforme as recomendações da citada DIRETIVA 2 ABNT. As regras contidas nesses" pareceres opinativos" podem ser alteradas em prazos mais curtos de tempo (1 a 2 anos), conforme a evolução do estado da arte naquele tema específico, para posteriormente serem incorporadas aos textos das normas técnicas.

No Brasil publicações do tipo "Práticas Recomendadas" do IBRACON, ou "Normas Comentadas", de várias entidades, como a CBIC, tentam suprir as lacunas criadas pela inexistência dos aqui sugeridos "Pareceres Normativos".

E você, caro leitor, tem outras soluções viáveis para o dilema apresentado?

{Veja no post [53] comentários sobre o caso específico dos fenômenos continuativos, do tipo que protraem, e a solução adotada pela jurisprudência quando a data inicial da constatação dessa patologia é desconhecida.}

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