Fabricantes de prédios: os novos competidores da indústria da construção mundial | Blogs Pini
24/Outubro/2016

Fabricantes de prédios: os novos competidores da indústria da construção mundial

Em 05/04/16 comentava neste blog sobre o fenômeno da globalização na indústria da construção civil sob a perspectiva do acirramento da competição por meio de novos construtores e desenvolvedores imobiliários internacionais, atraídos pela demanda reprimida do mercado brasileiro. Naquela oportunidade foram mostrados alguns exemplos da atuação internacional da Hyundai Engineering and Construction (Hyundai E&C).

A forma de atuação da BSB, Broad Sustainable Building Company, do grupo empresarial chinês Broad, é um outro exemplo que ilustra a intensificação da globalização no mercado imobiliário, impondo ao segmento uma forte tendência de industrialização. Esta industrialização se faz necessária para aumentar a eficiência na construção de edifícios e reverter o quadro de décadas de um desenvolvimento tecnológico mais tímido, se comparado ao que ocorreu em outras indústrias de mesmo porte, como na indústria automobilística.

O grupo empresarial chinês Broad, criado em 1988, é composto por quatro empresas, que atuam nas áreas de: ar condicionado (movido a gás natural), sistemas de aquecimento e refrigeração de núcleos urbanos, sistemas de purificação de ar e de pré-fabricação e construção de edificações, sendo esta última área a cargo da BSB.

A BSB foi estabelecida em março de 2009, e possui uma fábrica que ocupa cerca de 71 mil m², cuja premissa é a de pré-fabricar cerca de 90% dos edifícios que constrói (estrutura, vedação externa, decoração interna e sistemas hidráulicos, mecânicos e elétricos).

Desenvolveu até 2013, seis franquias na China que trabalham com tecnologias licenciadas pela BSB. Até meados de 2013 a BSB e seus parceiros franqueados haviam construído mais de 30 edificações em sistema modular pré-fabricado, em períodos incrivelmente curtos (da ordem de dias), incluindo dois hotéis, cujas estruturas e vedações externas foram montadas em tempo recorde: o primeiro hotel, com 15 andares, foi erguido em 6 dias; o segundo, com 30 andares, em 15 dias, sendo este último, associado a um custo total de construção de cerca de US$ 17 milhões.

Imagens referentes à construção em 2012 do Tower Hotel com 30 andares e 17 mil m². Edifício (estrutura, vedações horizontais e fechamento externo) montado em 360 horas (15 dias).

A sede do grupo chinês (Broad Town), que ocupa uma área de 1 km², tem cerca de 68% em áreas verdes e produz parte da comida servida aos funcionários através de cultura orgânica (proporção de 80%). Além disto, possui uma série de outras práticas interessantes, tais como a segregação e reciclagem de lixo, tratamento de água por osmose reversa, purificação de ar nas instalações prediais do complexo, além de teatro e área de ginástica para funcionários. Tais práticas materializam alguns conceitos do líder e fundador do grupo, premiado em 2011 pela ONU no programa de Meio Ambiente e em 2014, pela Revista Fortune, considerado uma das 25 personalidades mais inovadoras em 2014 com impactos na área de meio ambiente.

Broad Town - área ocupada pela sede do Broad Group na China (área destacada pela linha vermelha) com cerca de 1 km², tem 68% de áreas verdes e de cultivo de alimentos.

Em recente viagem ao Brasil (setembro/2016) a empresa deu claros sinais de seu interesse em montar uma fábrica de "edifícios" em solo brasileiro, com a premissa de replicar os seus conceitos de projeto, fabricação e montagem de edificações em tempo recorde, com custos competitivos e com apoio de parceiros locais, inicialmente em Fortaleza (CE), no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Este interesse do grupo chinês acontece depois de desenvolver intensamente processos produtivos eficientes e ter se deparado com um mercado imobiliário saturado na China, com elevado estoque e vacância de imóveis, procurando então, nesta aproximação com o Brasil, ampliar seus negócios.

Uma das apostas da empresa é fabricar e montar nas capitais brasileiras, empreendimentos com edifícios altos, para criar áreas de uso misto aonde as pessoas possam encontrar moradia, lazer e opções de trabalho em escritórios ou no comércio do complexo projetado. Com isto, a empresa pretende auxiliar na redução dos deslocamentos nas grandes cidades, que hoje são responsáveis por boa parte da perda de qualidade de vida das pessoas nos centros urbanos.

Imagem da construção de edifício na China, pela BSB, em tempo recorde.


Segundo a BSB, para que a instalação de uma fábrica subsidiária no Brasil seja viável economicamente é necessário que ela produza cerca de 3 milhões de metros quadrados por ano de edificações, com um raio de alcance de até 500 km (ideal), limitado a 1000 km, a fim de alcançar um payback de cerca de 3 anos.

Para a fabricação de um edifício, além do trabalho de padronização, a BSB procura simplificar ao máximo os projetos para conseguir produzir e montar os cerca de 50 mil componentes envolvidos, com eficiência e precisão. No processo de montagem há um planejamento horário cumprido por equipes especializadas em cada um dos grupos de componentes, os quais recebem códigos específicos para que seja possível organizar e controlar esta montagem.

Segundo o presidente da empresa, o projeto é coletivo e integrado, em que cada especialidade de projeto é submetida aos cerca de 30 engenheiros envolvidos no projeto.

Imagem da construção de edifício em estrutura metálica na China, pela BSB.

Nas palavras do seu presidente e fundador, Sr. Zhang Yue, "precisamos transformar a indústria da construção, através da inovação, assim como já aconteceu nas outras indústrias". Neste processo de inovação, um direcionador importante tem sido a industrialização da maior parte do processo de produção de um edifício (90%), com a redução do consumo de materiais envolvidos. A empresa conta com cerca de 2000 funcionários e tem consumido em seus empreendimentos cerca de 125 kg/m² de cimento e cerca de 50-70 kg/m² de aço. Segundo a empresa, o peso médio de um edifício fabricado por eles, gira em torno de 220 a 300 kgf/m² (cargas permanentes).

Além disto a BSB tem se notabilizado por conceber e fabricar edifícios com foco em eficiência energética, adotando vidros especiais, reaproveitamento do rejeito de calor de processos de condicionamento de ar e água, entre outros.

Com mais de 100 patentes, a empresa tem provocado espanto em sua forma agressiva de modificar o "mindset" da indústria ao montar edifícios altos em poucas semanas, após a conclusão das fundações, com custos de construção declarados bastante competitivos e que variam em função da altura do edifício. Estão compreendidos, segundo o CEO da empresa, na faixa de US$ 500,00 a US$ 1000,00/m². Já para habitações de interesse social, segundo a BSB, este custo de construção estaria compreendido entre US$ 500,00 a US$ 600,00/m².

Atualmente baseiam suas construções em estruturas de aço convencional, mas já trabalham numa nova geração de estruturas, em aço inox, soldadas por robôs portáteis e que já estão em desenvolvimento na BSB.

Mini Sky City

Um exemplo da forma inovadora e arrojada da atuação da BSB foi a construção do edifício Mini Sky City, de 57 pavimentos com 180 mil m². Com sistemas inovadores de purificação e monitoramento da qualidade do ar, aproveitamento de calor gerado em sistemas de resfriamento, entre outros, o edifício foi finalizado no começo de 2015.

Imagem da construção do Mini Sky City com 57 pavimentos totalizando 180 mil m², realizada pela BSB com auxílio de 8 gruas ascensionais externas e que foram desenvolvidas pela própria empresa.


Com uma velocidade de montagem de 3 andares por dia, o ciclo total do empreendimento de 57 andares foi de 12 meses: projeto, fundação, pré-fabricação de elementos, montagem da estrutura e dos fechamentos externos. Expurgando-se os atrasos alheios ao projeto, foram gastos 6 meses para as fundações, 4 meses para a pré-fabricação, 19 dias para montagem e o restante, para conceituação e projetos. Segundo o CEO da BSB, o edifício pesa cerca de 280 kgf/m² (cargas permanentes), ou seja, aproximadamente 40% do que se observa em edifícios tradicionais similares em concreto armado.

Com cerca de 1000 operários envolvidos na pré-fabricação do edifício e 400 operários divididos em três turnos durante os 19 dias de montagem dos 2.736 módulos, o edifício possui uma série de dispositivos "inteligentes" para seu controle e monitoramento automatizado, como por exemplo, no sistema de ar condicionado, no sensoriamento e operação do sistema de iluminação, no sistema de sombreamento de janelas externas (persianas) e na regeneração de energia pelo movimento de elevadores. Outro ponto de destaque no projeto, é a incrível rampa para circulação de bicicletas que vai desde o primeiro pavimento até à cobertura do edifício (telhado verde), com cerca de 3,6 km de extensão.

Neste projeto cada módulo recebeu um número de série para orientar a sua montagem. Os módulos de piso tinham cerca de 2 m x 12 m e já continham as instalações hidráulicas, elétricas e mecânicas, que haviam sido embutidas em fábrica.

As áreas técnicas ficam no subsolo do edifício (gerador de energia a gás que atende praticamente 100% da demanda do edifício e sistema de ar condicionado).

Segundo a BSB, na composição de custos de suas construções, os materiais representam cerca de 70%, sendo um dos principais itens o aço, com custo de US$ 500,00 a US$700,00 / tonelada.

Vanguarda

Destacam-se algumas ideias em desenvolvimento pela BSB na construção de edifícios e que chamam a atenção por irem na contramão do senso comum que tenderia a achá-las inviáveis tecnicamente ou economicamente:

* Paredes divisórias bem mais leves e resistentes, incorporando fibra de carbono;

* Aplicação de fechamentos externos em aço inox com núcleo em formato de colmeia: maior durabilidade, mais leves, com melhor desempenho térmico e com maior resistência ao fogo ao serem comparados com outras soluções em aço tradicional;

* Fabricação de edifícios com novos materiais, sem cimento em sua composição, com montagem 100% a seco;

* Grande investimento da própria empresa no desenvolvimento tecnológico, sem apoio de organismos de financiamento público;

* 80% do tempo do presidente da companhia é dedicado à pesquisa e inovação;

* Quase a totalidade dos lucros é reinvestida em inovação.

Estes conceitos e ideias pareceriam uma utopia se não fossem os resultados positivos já alcançados por uma empresa tão jovem, depois de investir intensamente em P&D.

Novos paradigmas

Sabemos da resistência inicial dos consumidores em relação a algumas inovações, em função dos aspectos culturais que acabam influenciado a decisão de compra de um imóvel, mas sabemos também, conforme lembrou o CEO da BSB, que em outras indústrias foi possível romper paradigmas históricos com a introdução de produtos e serviços inovadores. Como exemplo temos a mudança do conceito de projeto dos automóveis que migraram da "robustez" para o uso de carrocerias bem mais leves.

Acredito que estejamos próximos de um novo paradigma: produzir edificações, muito mais rápido, com mais precisão, com maior qualidade, mais leves e mais baratas, incrementando o seu desempenho através de novos materiais e de processos industrializados, pautados em engenharia mecânica, de produção e robótica.

Lembro que nos últimos anos temos testemunhado grandes indústrias sendo ultrapassadas por empresas cujos conceitos nem existiam alguns anos atrás, e que se

tornaram gigantes ao criarem novos paradigmas, como nas áreas de: comércio por meio de lojas físicas x e-commerce, locação e venda de entretenimento x conteúdo via streaming; taxis tradicionais x aplicativos, crowdfunding x bancos, e-learning x escolas tradicionais, filmes fotográficos x digitalização, entre tantos outros exemplos. Neste cenário deixo uma reflexão: caso se confirme este novo paradigma na construção de edifícios, quais as competências técnicas que as empresas e profissionais da área deverão desenvolver nos próximos anos para não se tornarem obsoletos?

Referências:

http://www.broad.org/enbroadcom/

http://www.bangkokpost.com/learning/learning-news/551107/chinese-skyscraper-57-floors-in-19-days-time-lapse-video

https://www.youtube.com/watch?v=PyxwgLYbAk0

CTBUH 2013 - Council of Tall Buildings and Urban Habitat https://www.youtube.com/watch?list=PLiwZ62tpFvnh4eNmGUVCFO4uj_hZJON3b&v=rF3U9A6qXrc

https://www.youtube.com/watch?v=_mso1J44wco&list=PLiwZ62tpFvnh4eNmGUVCFO4uj_hZJON3b&index=24

http://travel.cnn.com/shanghai/play/time-lapse-video-china-built-30-story-hotel-360-hours-458199/

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/30/chinese-construction-firm-erects-57-storey-skyscraper-in-19-days http://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-3cca82c0-af80-4c3a-8a79-84fda5015115

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